quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

São José dos Campos (de Cerrado)... Ou São José dos Extintos Campos ?

A criação de um Parque Natural Municipal, em diversas situações, seria motivo de grande alegria para a população. Este seria o espírito esperado de um anúncio como o da criação do Parque Natural Municipal do Cerrado em São José dos Campos/SP. No entanto, a iniciativa gera muito mais preocupação do que alegria.

Em primeiro lugar, porque tal parque está sendo anunciado sem que esteja concluído o Plano Municipal de Mata Atlântica e Cerrado (PMMAC), o qual deveria estabelecer diretrizes para a conservação destes ambientes no município. Inclusive qual seria o regramento para estabelecer zonas de amortecimento e corredores a partir dos remanescentes de Mata Atlântica e Cerrado. O PMMAC teve sua elaboração iniciada no Conselho Municipal de Meio Ambiente (COMAM) em 2019, mas até o momento a Prefeitura não apresentou a versão final, para debate público.

Voltando alguns passos na história recente, esta mesma gestão SUPRIMIU, por ocasião da Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo (vulgo Lei do Zoneamento, promulgada em 2019), 1.036 hectares de Zonas de Proteção Ambiental na mesma região. Esta área garantia minimamente a proteção de mais de 500 hectares em remanescentes de Cerrado (incluindo os famosos “campos”), além de estar toda inserida sobre área de recarga de aquíferos, cuja preservação é fundamental para a garantia da segurança hídrica na cidade. Sim, estes são os números! Suprimiu 1.036 hectares de proteção e agora propõe proteger um pequeno recorte de 30 hectares.

Mas isso não é tudo. Um dos principais fatores de proteção para a área a ser criada é o regramento dos usos em seu entorno, a chamada Zona de Amortecimento. Esta é tão importante quanto o parque, ainda mais quando se trata de uma área de proteção tão pequena para uma mostra tão preciosa do Cerrado joseense. A proposta apenas aponta algumas possíveis diretrizes, postergando a definição da zona de amortecimento. Dado o grau de ocupação atual na região e as pressões imobiliárias, há grande risco de que se degrade o ambiente de entorno antes de qualquer revisão do Plano Diretor (como propõe o texto) ou de definição posterior da Zona de Amortecimento. O ideal seria estabelecer a Zona de Amortecimento e seu regramento junto com a criação do Parque.



Neste contexto, algumas perguntas pairam sem respostas: a) Qual é a área total prioritária para conservação do Cerrado na região sul da cidade? Por que só destinam 30 hectares para o Parque? b) Quais são as áreas de conexão do Parque do Cerrado com os remanescentes de Cerrado na região Sul? c) Como estes corredores e os outros remanescentes serão protegidos? O que garante esta proteção, desde já?

O mundo caminha para mudanças transformadoras e a resiliência das cidades dependerá em grande monta, da capacidade de conservar ambientes naturais e ampliar as áreas sob proteção e restauração. Precisamos de um parque com dimensões muito maiores que os parcos 30 hectares destinados pelo município. Uma área cuja proteção inclua os corredores ecológicos e a ligação com diversos outros remanescentes de Cerrado ainda existentes. Afinal somos São José dos Campos de Cerrado. Ou não...?

domingo, 12 de dezembro de 2021

De marias e desafios... Ou: outubro é rosa... E tem espinhos...

Foi num dos poucos dias em que o inverno se manifestou este ano que Maria começou a entender melhor seus desafios próximos. O tempo, chuvoso e frio, aumentava a sensação de finitude e vazio quando se deparou com o resultado da ressonância realizada poucos dias antes. O exame refletia o que o ginecologista já previra, embora não tivesse expressado: um nódulo, possivelmente maligno, em sua mama direita. Diversas coisas vieram à cabeça naquele momento, como um turbilhão: “e se eu não tivesse protelado o exame anual?”, “mas o fiz por conta da pandemia”, “como eu, que não tenho nenhum caso na família?”, “ah, meu Deus, e como ficarão meus filhos?”, “devo contar pra minha mãe? Como ela reagiria a esta altura da vida?”, “mas não há de ser nada... E se for?”, “bom, o que tiver que ser será, e vou enfrentar isso!”.

Maria é funcionária pública. Graduada em Economia, seu salário está no terço superior do setor público federal, embora bem distante do topo da lista. O suficiente para uma vida relativamente tranquila, com contas em dia, sem extravagâncias. Os dois filhos pesam no orçamento, ainda que dividido com seu companheiro. Escola particular e plano de saúde privado, indicadores da boa condição econômica familiar, embora o plano seja um fardo todo mês. Afinal, com a política de estado mínimo, não há mais plano de saúde contratado pelo empregador (no caso, o estado) e dividido, com custos baixos, para benefício dos empregados. Por outro lado, para fugir da regulação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), um agente regulador que atualmente pouco (ou nada?) regula, as empresas de planos de saúde passaram a se concentrar na venda de planos coletivos, cujos aumentos anuais (sempre bem maiores que a inflação) não passam pelo curto radar da regulação. Resultado: nos últimos 4 anos, o plano de Maria dobrou seu custo mensal. Um fardo!

Em algum outro lugar da cidade, outra Maria recebia diagnóstico parecido, mas por meio diferente. Era o próprio médico quem dava a notícia, afinal, Maria, embora estivesse com o laudo na mão, não sabia ler. Ainda assim, metódica e preocupada, tentava manter uma rotina anual de exames, esbarrando muitas vezes nas dificuldades de uma simples marcação de consulta. Com a pandemia então, as consultas e procedimentos no posto de saúde mais próximos foram suspensos. O médico a lhe dar a notícia não foi o mesmo que sugeriu o exame, que havia sido solicitado há mais de 1 ano. Maria estava surpresa: “como assim Doutor? O último exame não deu nada... Fiz no SUS”.


O SUS (Sistema Único de Saúde) é um sistema impressionante por suas dimensões e cobertura. Foi responsável pela melhoria de diversos indicadores de saúde no país, desde sua implantação, em 1988, a partir da Constituição. Sem ele, não teríamos erradicado algumas doenças crônicas do país. Com ele, tratamentos de altíssima complexidade são possíveis. No entanto, este acrônimo ainda é uma estampa das condições desiguais que conformam a saúde no Brasil.

Maria mora em uma área de ocupação irregular, na periferia da cidade. É diarista e depende deste trabalho para manter os 2 filhos, sozinha. Por sorte conseguiu vaga para as crianças em uma escola pública próxima – foi difícil que aceitassem sua condição de moradora em área irregular, mas a Defensoria Pública ajudou. Conseguia completar o parco orçamento familiar com o tal Bolsa Família. Para ser atendida no posto de saúde, não teve problemas com o registro, o problema ali sempre foi a demora para conseguir uma consulta. Com a pandemia, diminuíram os pedidos de limpeza doméstica. O auxílio emergencial foi essencial para ter o que comer nesse período.

Para Maria, a primeira, da consulta anual, atrasada em 3 meses por conta do receio com a exposição na pandemia, até o diagnóstico final, foram uma mamografia, uma ultrassonografia, uma ressonância magnética e uma biópsia, tudo isso em 3 semanas (nessas horas, alguns planos de saúde privados funcionam!). O atraso da pandemia poderia ter tido um custo alto: a mamografia e a ultrassonografia não acusaram o tumor. Foi graças à insistência do médico, pelo exame clínico, e sua experiência, que se exigiu exame mais preciso. O tumor crescera consideravelmente nos 3 últimos meses!

Para o médico da outra Maria, as coisas estavam um pouco mais claras do que para a paciente: a última mamografia era de 2 anos atrás, e de fato o laudo não indicava nada muito ruim, mas o médico na ocasião sugeriu o acompanhamento com novo exame em 6 meses. Maria só conseguira nova consulta um ano depois. O tumor já havia crescido. O médico de então, outro rosto novo para Maria, pediu uma ultrassonografia. Mais um ano... O resultado confirmara o tumor. “Dona Maria, vamos pedir uma biópsia. Vou solicitar urgência desta vez”. Mais 6 meses e finalmente o diagnóstico: câncer invasivo metastático na mama direita.

As piores sensações, para a economista, duraram pouco. A primavera chegou com profusão de flores e cores. Em anos de crise hídrica, as florações geralmente são mais exuberantes. É uma forma de garantir, com mais flores e frutos, a sobrevivência da espécie em momentos difíceis. Com apoio familiar e uma autoestima peculiar, passou a enfrentar os desafios de maneira tranquila e confiante. Seu tratamento envolveria uma cirurgia para extração do nódulo, e de linfonodos ligados a este, com uma técnica avançada, sem necessidade de retirada da mama. O tratamento seguiria com a quimioterapia, se um teste realizado nos EUA assim indicasse, radioterapia e hormonoterapia. Em alguns meses, tudo resolvido! Bom, não sem antes alguns percalços: os excelentes médicos indicados para Maria não estavam na cobertura de seu plano de saúde. O teste nos EUA, embora seu resultado possa evitar a quimioterapia em alguns casos (estima-se em até 70% para alguns tipos de câncer menos invasivos), também não é coberto pelo plano (lógica curiosa estas dos planos: o tal teste tem custo alto, mas bem menor do que o custo da própria quimioterapia, que poderia ser evitada em muitos casos). Ufa! Maria  tinha suas economias. E conseguiu realizar estes custos à parte. Infelizmente, o teste dos EUA não foi muito resoluto para seu caso: há que fazer quimioterapia, just in case! Por sorte (sim, no Brasil parece mesmo questão de “sorte”), o plano cobre a quimioterapia... Aliás, o universo oncológico é amplo: hoje, para os do andar de cima, junto à quimioterapia há um pacote de medicamentos de apoio, cujo custo é da mesma ordem dos quimioterápicos, não à toa chamado por alguns de “kit do bem estar”: sem náusea, sem dores, sem queda de imunidade, e até, nos casos mais brandos, sem queda (ou com queda reduzida) de cabelos!

Maria diarista tivera uma vida mais difícil. As notícias piores vieram na primavera. Extraiu a mama por completo, e mais uma porção de linfonodos, cirurgia realizada pelo SUS (sim, com todos os atrasos, desde o diagnóstico até a cirurgia, é ainda um alento saber que é possível ter o tratamento sem custos pelo serviço público). A recuperação foi mais longa e dolorida. Adentrou o verão, que chegou com extremos climáticos. Alguns familiares tiveram casas afetadas por deslizamentos, bem próximos à sua. Casa cheia com parentes abrigados. O tal teste dos EUA não está na lista de procedimentos do SUS, portanto, a diarista teve que fazer quimioterapia, sem opção (repetindo: o custo da quimioterapia é bem maior que o do teste e, para alguns tipos, o teste poderia indicar a não necessidade de quimioterapia em até 70% dos casos – uma situação típica para análise de investimento em saúde pública!). A quimioterapia coberta pelo SUS não abrange o “kit bem estar” completo, e, diante do quadro evoluído do câncer, sua dose de quimioterápicos foi bem maior! Pobre Maria... Vivenciou todas as agruras da injeção de químicos potentes em suas veias, com todos seus efeitos colaterais, da perda total dos cabelos às náuseas frequentes e prostração, que quase a levou a um quadro depressivo. Mas ela é de rocha! Enfrentou tudo e hoje está potencialmente curada.

O outono chegou sem se anunciar. Tudo indica que será mais quente e seco, apesar das chuvas de março que insistem em desaguar tanto em tão pouco tempo. Ambas as Marias passam bem, cada qual à sua maneira e possibilidades, sujeitas agora às próximas desventuras e alegrias...


Para saber mais:

- Sobre planos de saúde e a ausência de regulação:

https://idec.org.br/noticia/reajustes-deixam-planos-de-saude-ate-50-mais-caros-faca-seu-calculo

- Sobre teste para avaliar necessidade de quimioterapia em alguns casos de câncer de mama:

https://www.femama.org.br/site/br/noticia/teste-genetico-dispensa-quimioterapia-em-mulheres-de-hospital-de-sp

- Sobre o SUS:

SUS - https://pensesus.fiocruz.br/sus

- Sobre o SUS e a melhoria da Saúde Pública no país: 

https://www.scielosp.org/article/sdeb/2017.v41n113/500-512/

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Política de sinais contrários: o problema da informação errática em tempos de pandemia


O Brasil atinge o terceiro mês sob a COVID-19 nas primeiras posições do mundo em termos de casos e óbitos. E, ao que tudo indica, continuamos em curva ascendente da doença, com consequências ainda mais trágicas para as próximas semanas. Gostaria de salientar dois aspectos importantes a analisar a partir dos números consolidados da doença ao longo do tempo. O primeiro diz respeito à propagação da doença seguindo um padrão característico: a existência de um patamar inicial, no qual a disseminação da doença é mais rápida onde a desigualdade é menor, e um segundo momento, no qual países mais desiguais demonstram mais dificuldade de controle da doença, com escalada de casos. Esta hipótese, se comprovada, explicaria um fenômeno vivido no Brasil, especialmente nas capitais menos conectadas ao tráfego internacional (vetor inicial da disseminação da doença) e cidades de médio e grande porte no interior do país. A doença chega pelas classes mais abastadas e quanto maior a desigualdade, mais tempo ela leva para atingir índices de transmissão comunitária efetivos nos extratos menos favorecidos da população. Este lapso de tempo é crucial na percepção de risco e na adoção e manutenção de medidas de contenção da doença. Voltaremos a este ponto mais adiante.

O outro aspecto é o da comunicação e informação oficial, de Estado, sobre a doença e as formas de contenção. Sabemos que o país opera um regime federativo, com municípios, estados e união com autonomias subjacentes, e eleições diretas para cada nível, de maneira intercalada. Isso implica em divisões e alinhamentos políticos diversos, conforme a conjuntura, em cada instância administrativa. Um cenário de polarização política extrema, como o que vivemos, pode ampliar os impactos de uma pandemia, a depender da forma como cada ente político se comporta neste sistema federativo.


Este artigo foi originalmente publicado no portal Terapia Política (www.terapiapolitica.com.br) em 17/06/2020. Para continuar a leitura, acesse:

https://terapiapolitica.com.br/2020/06/17/politica-de-sinais-contrarios-o-problema-da-informacao-erratica-em-tempos-de-pandemia/

A desigualdade mora ao lado ou de como um vírus escancara o fosso social brasileiro

O advento da COVID-19 tem impactado vários países de maneiras diferentes, assim como diferentes têm sido as estratégias adotadas para lidar com a doença. Dentre posicionamentos políticos, iniciativas, estratégias, e seus resultados, duas percepções chamam a atenção em meio à pandemia: a dificuldade que governos com viés autoritário têm em lidar com a doença, e a desigualdade entre cidadãos quanto à resiliência em relação à mesma. De certa maneira, ambas influenciam, isoladamente ou de modo sinérgico, o grau com que um ou outro país tem sido afetado pela pandemia. Via de regra, a questão do autoritarismo se apresenta já nos estágios iniciais, a partir da identificação dos primeiros casos, e está diretamente associada ao menosprezo à ciência, à baixa transparência em relação aos números da doença, e ao diversionismo nas tratativas de comunicação com a sociedade. Dependendo da forma, pode inclusive induzir populações à adoção de medidas questionáveis, como o uso de um ou outro medicamento sem eficácia comprovada, ou até mesmo a uma exposição mais arriscada à doença. Já a desigualdade é trazida a lume um pouco mais adiante, quando a doença, já em franca disseminação, atinge as parcelas socialmente mais vulneráveis das populações. O caso brasileiro é um exemplo do pior tipo, tendo sido o país palco tanto dos arroubos autoritários de um clã político ideológico extremado, quanto da desigualdade alavancada nos últimos anos e que pode atingir proporções abissais com a pandemia. Embora a questão política seja por si só um chamariz à discussão, e certamente há muitos tratando disso neste momento, gostaria de me concentrar aqui no segundo ponto, a questão da desigualdade, contribuindo para elucidar alguns modos de como esta é, ou não, percebida em meio à pandemia, especialmente no que tange ao acesso da população aos equipamentos de saúde, mas também sobre outros aspectos correlatos, sem a menor pretensão de exaurir o assunto.
Este artigo foi originalmente publicado no portal Terapia Política (www.terapiapolitica.com.br) em 12/06/2020. Para continuar a leitura, acesse:

São José dos Campos: o paradoxo da modernidade. Ou: de que sustentabilidade vocês estão falando?


Os recentes embates em torno da nova lei de zoneamento para o município expõem um notável paradoxo que permeia a cena joseense pelo menos nas últimas duas décadas. O passado sanatorial e hidromineral, além do assentamento industrial da segunda metade do século XX, fizeram a base que permitiu o modelo urbanístico atual, de vias largas, bairros planejados para a qualidade de vida, como o Jardim Esplanada, Jardim Apollo, residenciais e amplamente arborizados, os quais serviram de referência até mesmo para as regiões criadas em torno de aglomerações industriais, como o Jardim Satélite e Bosque dos Eucaliptos e o Jardim das Indústrias, sem falar no próprio CTA, com projeto de Niemeyer. São José dos Campos, definitivamente, ganhara ares de modernidade.

Entretanto, com o passar do tempo, e o aumento do protagonismo do município na região, os interesses econômicos e políticos foram se organizando e acomodando de tal maneira que passaram a gerar barreiras à formulação de visão de futuro da cidade a partir de um amplo diálogo com a sociedade. O poder institucional para a definição do plano urbanístico futuro e de seu regramento (o zoneamento), que teria na Prefeitura um elo e na Câmara dos Vereadores a possibilidade de se exercer contrapontos e contemplar os interesses legítimos da sociedade no regramento, tem sido monocrático: o que vem do executivo é acatado simplesmente pelo legislativo, numa subserviência inadequada à expressão da cidadania. A absoluta ausência de diálogo com a sociedade (os áudios das audiências públicas, nas quais a insatisfação da cidadania foi notável, porém em vão, comprova isso) e a incorporação de interesses quase exclusivos da indústria imobiliária na proposta de zoneamento municipal são elementos que excluem da visão de futuro temas como a redução da poluição, a melhoria da mobilidade urbana, a sustentabilidade, a resiliência do município às mudanças do clima e a justiça social, que passam a ser objetos de manifesto de grupos de cidadãos, preocupados com a qualidade de vida no futuro próximo.

Prefeitura e Câmara refletem, assim, um modelo de governança atrasado, provinciano, muito aquém do que vigorara décadas atrás. Longe de ser uma cidade de vanguarda, São José dos Campos pode vir a incorporar elementos urbanísticos do que há de mais atrasado na cena mundial.

A seguir, apresento algumas dos problemas associados à nova Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo (ou simplesmente Lei de Zoneamento), promulgada em 2019. De antemão, esta aumenta a vulnerabilidade climática do município, expondo a risco os cidadãos, pois:
  • Permite a redução significativa de remanescentes de vegetação de Cerrado no município, ao retirar o caráter de Zona de Proteção Ambiental destas áreas;
  • Permite a redução do caráter de proteção de áreas fundamentais para a recarga de aquíferos no município e na bacia do rio Paraíba do Sul;
  • Reduz sensivelmente a resiliência do município, e da região, frente a possíveis cenários de extremos climáticos, que podem se apresentar como secas críticas até chuvas intensas, e aumento de temperatura, ao permitir a redução de áreas verdes no núcleo urbano consolidado, com aumento dos coeficientes de impermeabilização nestas zonas.
É importante ressaltar que o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado (PDDI) do município, recentemente aprovado (Lei Complementar 612, de 30/11/2018), privilegiou a verticalização, permitida a partir da adoção de coeficientes máximos de aproveitamento) e o adensamento ainda maior de áreas cuja ocupação está consolidada, em detrimento de manutenção e criação de áreas verdes e espaços livres de ocupação, que garantiriam maior resiliência da cidade à fenômenos climáticos extremos, amortização da poluição atmosférica e também maior qualidade de vida à população. A carência destes elementos no PDDI amplia a importância da Lei de Zoneamento (Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo - LPUOS) para a proteção de áreas relevantes para a qualidade de vida e resiliência da cidade.

Em síntese, a LPUOS determinou perdas urbanísticas importantes para a sustentabilidade, permitindo, dentre outros, a redução da área mínima de diversas categorias de loteamentos, o que aumenta o parcelamento e reduz as áreas verdes, além de alterar significativamente a proteção ambiental no município. 

No que diz respeito às Zonas de Proteção Ambiental, ZPA1 e ZPA2, estas representam um dos principais elementos de interface ambiental na Lei de Zoneamento e garantem, minimamente, a conservação ambiental em áreas consideradas importantes e estratégicas para o município, especialmente quando localizadas em área urbana consolidada ou em consolidação.

A nova Lei de Zoneamento simplesmente SUPRIMIU estas áreas das partes mais sensíveis do tecido urbano, substituindo-as por ZPE (Zona de Planejamento Específico) e ZUPI (Zona de Uso Predominante Industrial). É uma área equivalente a mais de 1.000 campos de futebol, antes destinada à proteção ambiental, agora sujeita a novos loteamentos residenciais e industriais, como ilustrado na Figura 1.

Figura 1. ZPAs na versão anterior (esquerda) e atual (direita). Circuladas (em vermelho) as áreas suprimidas na região sul e sudeste da cidade.

A conservação destas áreas é necessária, seja por seus atributos biológicos (remanescentes de Cerrado), seja por atributos físicos e geológicos (adensamento de fraturas e recarga de aquíferos), seja por aspectos paisagísticos, seja por questões associadas à saúde pública e à resiliência da cidade. 

Nos planos urbanísticos de cidades mais avançadas, as soluções baseadas na natureza, por vezes chamada de infraestrutura verde, são peças chave para a qualidade de vida e a resiliência climática. Atualmente estamos perdendo tal capacidade, justamente por desconfigurar parte importante desta rede natural, que poderá nos fazer falta num futuro próximo. Somem-se a isso uma desastrada gestão da arborização urbana e a completa ausência de investimentos em mobilidade urbana sustentável (aqui ainda se privilegia o transporte individual motorizado), dentre outros fatores, e percebe-se o quão involuímos no quesito sustentabilidade.

Assim se consolida o paradoxo da falsa modernidade da gestão municipal joseense: apoiada em uma verve tecnológica (e “moderna”), a propaganda governamental esconde o que há de mais atrasado no plano urbanístico e de sustentabilidade. Importa mais colocar a cidade à venda, em detrimento de torná-la uma cidade voltada para a qualidade de vida, com inclusão e sustentabilidade.

domingo, 31 de maio de 2020

Uma linha não tão verde...


De fato, o que a Prefeitura de São José dos Campos anunciou como um projeto de Linha Verde, é uma linha verde hoje. São cerca de 1,5 milhões de metros quadrados de um tapete de vegetação que corta a cidade de Sul à Leste, sobre o qual repousam os “bonecos” metálicos que sustentam os cabos de transmissão de energia no município. O chamado “linhão da eletropaulo” (atualmente CTEEP), por um lado, representa uma barreira ao desenho da cidade: separa bairros, constrange a infraestrutura, dificulta os elos urbanos. Por outro, a linha funciona como uma área de infiltração de água, amortecimento de cheias, e até mesmo, para alguns, como alternativa paisagística preferível à selva de pedra: um tapete verde, como pode facilmente ser observado na imagem de satélites do Google (Figura 1).

Figura 1. Imagem de trecho do Linhão CTEEP em São José dos Campos. Fonte: Google (2019)

O projeto recentemente lançado pela Prefeitura, chamado de Linha Verde, pretende, ao contrário do que possa parecer, tornar a linha muito menos “verde” do que é atualmente. A área “sustentável” anunciada no projeto terá meros 75.000 metros quadrados, ou cerca de 5% da área hoje verde do linhão. Há outra parcela pequena, que seria ocupada por eixos de transporte (o TRM e ciclovias). Todo o resto, que corresponde a cerca de 60% da área, ou seja, mais de 1 milhão de metros quadrados, será ocupado por edificações de todo o tipo e sob critérios muito distantes da “sustentabilidade”: a maior parte terá coeficientes máximos de aproveitamento, alguns terão restrições mínimas de ocupação e alguns poucos estarão sujeitos a critérios um pouco mais restritivos. Ou seja, de “verde”, pode-se presumir parcela menor que 10% de toda a linha, que hoje é um tapete verde de fato.

A ideia do aproveitamento do linhão, com o aterramento dos cabos elétricos e uso como eixo de Transporte Rápido de Massa, não é nova. E pode ser muito interessante. Mais ainda com acoplamento a um eixo cicloviário extenso, ligando partes importantes da cidade, hoje separadas, sem um traçado contínuo. No entanto, o custeio da obra é algo que precisa ser esclarecido, afinal, da forma como apresentado, trata-se de um grande projeto para empreendimentos imobiliários de todo perfil. Certamente boa parte desta conta deveria ser paga pelos empreendedores, que ganharão uma grande vitrine de investimentos, numa esperada parceria público-privada. E, embora haja elementos interessantes para a mobilidade urbana, esta linha está longe de ser “verde” como pintam!